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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

DE RICARDO LEMOS

Caro François;

Boa noite e bom frio de agosto, coisa rara e boa.

Já te disse o quanto gostei de Esmeralda. E gostei tanto que indico, reendico

e adotei como presente para amigos e leitores exigentes por esse país afora.

Tenho espalhado Esmeralda com muito prazer e uma ponta afiada de orgulho.

Mas o bom é que os que recebem aderem ao espalhamento e assim vai Esmeralda

espalhando nosso sertão. Agora mesmo, de partida para uns dias em SP levo dois

no matulão. Ambos a pedidos e como encomendas recomendadas com o peso e

o valor de presentes do dia dos pais.

Deu trabalho pra achar. Na Siciliano, depois de correr olho nas prateleiras, recorri

a atendente que afirmou haver em estoque. Não achando, recorreu ao computador.

E confirmando o estoque zero estranhou e disse;

- ...estranho. Era para ter; a moça trouxe muitos da última vez.

Respondi que adorei a informação e acho que ela não entendeu, porque sai mais

satisfeito do que se tivesse achado. Fui achar na Banca da Afonso Pena e trouxe

os últimos. Senão ia o meu mesmo...

Bote Esmeralda na rua, amigo, que é mercadoria fina, rara e deliciosa.

Mas vou te deixar em paz, torcendo pro Sr. parir logo outro mimo pra nós.

Abraços e inté a cerveja que nos devemos - com o mestre Lau, de preferência.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A CASTANHOLA DE CASCUDO

Pouco mais de dez por cento restam das árvores nativas nas encostas das serras potiguares. Ipês roxos, azuis e amarelos praticamente extintos. Angicos e trapiás desaparecidos. Mororós, raridades. E o processo de assassinato das poucas matas restantes continua em acelerado ritmo de execução. Sem uma palavra de alerta. Sem um gesto de qualquer órgão defensor da natureza. Sem um lamento na grande imprensa.

Mas a retirada de uma castanhola senil, de tronco oco, beira da morte, causou furor e protesto na vida cultural da cidade. Uma cultura que vai tão bem, ao ponto de ter tempo para espernear em favor de uma única planta sem futuro.

Tudo porque Cascudo, num momento de pileque ou gozação, chamou-a de “a árvore da cidade”. A vetusta combretácea não merecia honra tão nobre.

Qual a serventia real das castanholas? Sombra? Há uma infinidade de árvores mais úteis com sombra melhor. Até mesmo o pau-brasil tem melhor currículo. Serve pra lembrar da ladra coroa portuguesa, que ao vir para o Brasil só trouxe um príncipe fujão, uma princesa promíscua, pardais e palmeira imperial. Por falar em palmeira imperial, essa é outra árvore sem qualquer serventia. O caule é um monstrengo, não dá frutos nem sombra e sua ornamentação fica para o olhar das nuvens. Oswaldo Lamartine me disse certa vez que a palmeira imperial carrega consigo uma maldição. Quando a parte verde do seu caule ultrapassa a cumeeira, alguém da casa adoece seriamente ou a família entra em declínio financeiro. A castanhola só serve para quebrar calçadas e atrair morcegos.

Fico imaginando a cena. Cascudo recebera um reparo de Hélio Galvão sobre a denominação de Fortaleza em vez de Forte. A sinonímia, das duas palavras, nos dicionários só vai até o alcance vernacular. No sentido histórico-militar Fortaleza e Forte não são sinônimos. A Fortaleza é uma praça fortificada, podendo ter vários fortes, com poder de fogo muito acentuado. O Forte é uma edificação única, com poder de fogo limitado. O “Reis Magos” é um forte, não uma fortaleza.

Cascudo vem do mangue, na boléia da camioneta de Roberto Freire, ao lado de Luiz de Barros. Passam pela frente dos Correios, dobram pela Alfândega à esquerda e param no início da Duque de Caxias, donde se vê o Banco do Brasil. Desce do carro, acende um charuto, olha para uma castanhola, que cisma de continuar verde no calçamento, e brada: “Para quem duvida das fontes de Cascudinho, eu nomeio essa castanhola solitária a Árvore da Cidade. Uma é símbolo da outra que não consagra nem desconsagra ninguém”.

Hélio Galvão não tomou conhecimento. Nem Esmeraldo Siqueira. Mas Cascudo, merecidamente, virou celebridade mundial. E a castanhola virou “árvore da cidade”, o que não quer dizer coisa nenhuma. O Machadão não é o poema de concreto?

Tudo numa terra onde o símbolo cultural vale mais do que a cultura propriamente considerada. Té mais.
 
François Silvestre

Rubens Lemos

CRAQUE EM PRIMEIRO LUGAR .


Recebe a pecha de ultrapassado(no mínimo), quem defende, por convicção, o talento em primeiro lugar. O brilho de um estilo, o sol de uma virtude, a elegância de um especialista. Hoje, segue como entulho mais indesejado ao armário dos esquecimentos, quem valoriza e exalta a superioridade do craque.


Em qualquer campo, de futebol ou de vida, haverá alguém a ser olhado com a expectativa da cortina a ser aberta, da interpretação mágica num filme, do drible sensual e do chute, com efeito, gol feito sutilmente, devagar, ritmo da bola em perfeito compasso com o do coração dominado. Delícia de orgasmo.


Não é preciso ser diferente para apreciar os que estão acima da média. Basta ter a humildade de medir a exatidão dos seus limites. É o que faço, até como um mantra a me acompanhar todos os dias.


Só os craques se adaptam sem se acomodar, improvisam, saltando, soberanos, do capim morto do lugar-comum, para o verde brotado da chuva, das imediações dos açudes inspiradores da poesia.


Acabo de encerrar um livro. Não mais um. O. Livro que é livro é aquele que se faz locutor mudo da grandeza das palavras simples, bonitas, tecidas, polidas com a paciência dos ourives em seus diamantes.

É Esmeralda, o Crime no Santuário do Lima, de François Silvestre. Emociona os regionalistas, contagia quem faz da leitura, companhia, do romance, novela de imaginação fértil. Tão mágico, que segura a atenção muito depois do além-fim.


François, do alto da Serra do Martins, inspirado pela ilha de temperatura amena, no arquipélago de calor oestano, produziu uma peça. Literária. Sem arrogâncias ou boçalidades, tão anti-holofote que nem lançamento em livraria fez. Comprei numa banca. O último exemplar que tinha.


O François, que um dia, rebelde contra a Ditadura Militar, foi escalado para a editoria de esportes de um jornal, a Tribuna, junto com um velho amigo e irmão de luta(ainda havia, sim, idealismo), ligado a mim por amor e sangue. Era no esporte que se exilavam os inconformados com a repressão.

O François, que sem acompanhar pouco ou nada de futebol em 1973, construiu, o que até hoje é o melhor texto sobre Alberi, Deus das alegrias libertárias das gerais e arquibancadas do elefante.

Os dois eram craques, os dois se entenderam.

Assim se eternizam.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A ESMERALDA DE FRANÇOIS


“O alvo certeiro da vida é atingir o medo. O alvo da escrita é o leitor. O que gosta de ler para concluir por si mesmo. Sem esperar o gosto alheio.” François Silvestre de Alencar

Esta semana acabei de ler o já inesquecível ‘Esmeralda: Crime no Santuário do Lima’. François Silvestre de Alencar, em sua melhor forma, confirma ser o melhor entre os ficcionistas em atividade por estas bandas. De longe, arrisco dizer. Talvez pela profunda compaixão com que ele banha os personagens que descreve ou (re)inventa.

‘Esmeralda’, além de deliciosa leitura − quase gruda na gente −, é um roteiro de cinema praticamente pronto. O romance contemporâneo mais vital e visualmente buliçoso de que consigo me lembrar*. Patu e a Serra do Lima e a riquíssima fauna humana que habita e flutua por lá agora são agora matéria universal; a terra de Rodrigo Levino pode encomendar o monumento ao autor; mesmo contra a vontade dele, que, avesso a tietagem, se recusa até a fazer as proverbiais noites de lançamento e autógrafos. *(Ando pensando num jeito desse livro chegar às mãos de Karim Aïnuz…)

Falei em “fauna humana que habita e flutua”, porque a maior parte dos protagonistas de ‘Esmeralda’ converge do Ceará, Paraíba e de outras bandas do Rio Grande para o Santuário de N. Sra. dos Impossíveis, na Serra do Lima, onde se concentra a ação. Ao longo da trama, endiabradamente bem urdida, cheia de surpresas e falsas pistas, há um vai-e-vem constante de almas buscantes, uma querência errante que faz pensar num caráter andejo do nordestino, para quem a romaria talvez seja apenas a face ritualizada de uma instabilidade espacial mais profunda, imposta pelas circunstâncias ou, quem sabe, constitutiva mesmo da nossa cultura de povo mestiço e novo; ou de “pré-povo”, como prefere François.

Como um autêntico herdeiro de Chaucer e da tradição do contamento de histórias, comum a todos os grupamentos humanos que nalgum dia imemorial se reuniram em noite escura ao redor de fogo ou fogueira para espantar frio e medo, François lança seu olhar agudo (mas sempre compassivo) e usa a verve narrativa que tem de sobra para dar vida a romeiros, clérigos, ciganos, doidos de vários matizes, ricos, ralé e remediados. A maioria de seus personagens fica carimbada inescapavelmente na nossa cabeça de leitor. E tudo isso sem floreios lingüísticos ou maneirismo oco, e sem forçar a mão numa picaresquice meio previsível que abunda por aí. Rola uma putaria aqui e acolá, mas com medida.

Quer uma leitura prazerosa? E, de quebra, dar uma banda em alguns becos mal-iluminados das paixões humanas? Pois vá atrás do gingado fatal da cigana Esmeralda pelas ladeiras do Santuário do Lima. E atenção nas pitadas de sabedoria que saltam do “caderno de Netarino”, com que François pontua a narrativa. Sou capaz de apostar que não se arrependerá.

Independentemente de ter ou não raízes ou interesse no mundo do Sertão. Que aqui o Sertão é matéria e pretexto; por acaso é o universo cultural e estético que formou o autor, que o conhece a fundo e sabe trazê-lo pra perto de nós. Porque no final das contas, o que desfila na trama de ‘Esmeralda’ é tragicomédia humana: a nossa tragicomédia

Por Chico Moreira Guedes
Revista Quartoze