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sexta-feira, 18 de junho de 2010

EM CAJUAIS DA SERRA

Entrevista com Chico Preá.

O repórter da Revista Tijuaçu descobriu, não sei como, que Chico Preá estava em Cajuais da Serra. Não disse que era uma entrevista. Puxou conversa e começou a perguntar.

Revista Tijuaçu- Como você vê a política do Brasil? Chico Preá- Tapo o nariz e arregalo o olho. RT- O que é a Esquerda? CP- Uma merda. RT- E a Direita? CP- Uma fossa. RT- O que é a poesia? CP- Nem os poetas sabem. RT- Pra que serve a literatura? CP- Pra tirar o gosto, quando a vida vira um porre. RT- O que é a vida? CP- Uma viagem de trem. RT- Quem foi Cristo? CP- Quem foi eu não sei. Mas hoje ele é a botija dos espertos. RT- Quem foi Marx? CP- Um gênio desperdiçado. RT- O que são as igrejas? CP- Balcões de receber grana, sem recolher impostos. RT- O que é a fé? CP- Um repelente de angústias. RT- O que é a ignorância? CP- A erudição dos pedantes. RT- O que é erudição? CP- Um mealheiro de informações. RT- Pra que serve a leitura? CP- Pra sossegar o quengo. RT- O que é a imprensa? CP- Uma lata de siri. RT- O que é a mídia? CP- Um tonel de siri. RT- O que é a cultura? CP- A alma coletiva. RT- O que é povo? CP- Um molusco sem o lê. RT- O que é a Pátria? CP- Coturno e tarol nas ruas do dia sete. RT- O que é a verdade? CP- O silêncio. RT- O que é um clichê? CP- O michê da ignorância. RT- Quem foi Einstein? CP- Um gênio aproveitado. RT- E Newton? CP- Um gênio substituído. RT- O que é a música? CP- O ruído organizado. RT- O que é a justiça? CP- Uma ilusão togada. RT- O que é um intelectual? CP- Individuo estudioso que pensa ser segredo dele o conhecimento adquirido. RT- O que é um filósofo? CP- Um sujeito que briga com ele mesmo. RT- O que é a inveja? CP- O coma moral. RT- O que é um romance? CP- Uma história longa, que enfada os maus leitores. RT- O que é um bom livro? CP- Aquele que você chega à última página. RT- E um livro excelente? CP- Aquele que levará você de volta à primeira página. RT- O que é um crítico? CP- Um observador rigoroso, que valoriza a arte mesmo se não gostar dela. RT- O que é a história? CP- O curral da espécie humana. RT- O que é um jovem? CP- Um projeto de velho. RT- E o que é um velho? CP- Um sobrevivente da ilusão. RT- O que é a morte? CP- O retorno ao antes da vida. RT- O que é o Estado? CP- Um armazém de burocratas. RT- O que é Governo? CP- Um síndico que não presta contas aos condôminos. RT- O que é um leitor? CP- O único alvo da literatura. RT- O que é um candidato? CP- Uma simpatia bissexta. RT- E o eleitor? CP- Um cúmplice da enganação. RT- O que é a amizade? CP- A relação humana que dispensa o desejo, o interesse ou a cobrança. RT- E a inimizade? CP- A única relação humana completamente honesta. RT- Pra encerrar, diga um sonho. CP- Nunca ser preciso tirar documentos.

Nisso, já bêbado o repórter, Chico Preá esporou Suspiro e se mandou. Té mais.
 
François Silvestre

terça-feira, 16 de março de 2010

François Silvestre - 1º Suspense



Num lugar onde só morassem ciganos, políticos, chefes de igreja e donos de jornais ninguém sobreviveria. Pois não haveria ninguém pra ser enganado ...

... A memória é o olho do recluso. A janela do trem imóvel. Só ela passa. Só ela corre. Tudo se mostra no palco da memória. Ela inventa cores. Imita sons. Desenha personagens num incansável palimpsesto. Apaga e faz de novo. Por ar no nariz, claro na retina, sangue no coração. Memória não é lembrança. Lembrar é domínio do acaso. Sem controle. Lembrar tem a ver com afeto ou interesse. Memória, não. A memória é um prêmio e um castigo.



Dispenso apresentação;
Eu não sou nada!

No meio de tantos que se acham tanta coisa.
Não canto palmeiras nem jangadas.
Desafinado ainda procuro a oitava nota.

Escritor pequeno - de insignificante literatura.
Saio caçando leitor.
No singular.
E me divirto no meio das luzes de poucas velas.
Que o tempo vai apagando antes do tempo.

Vento cruel, apagador de vaidades.
Ao soprar nos becos os restos mortais dos Poetas e gênios da Cidade.

Ele me faz lembrar que sou planície.
O mar não tem elevações.

Só nos maremotos e tempestades.
No sossego ele é reto.
Liso e monótono.

Gosto das montanhas!
Foi assim que as pequenas serras se fizeram.
Para os meus olhos de criança.

O mar só muda de contorno.
Das suas praias.

Cada momento tem um azul diferente.
Um sertão de vários cinzas.
Um movimento sensual de nuvens.
Fazendo sexo no céu.
Hermafroditas e promíscuas.


NAS MELHORES LIVRARIAS E BANCAS DE JORNAIS.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Nordestino

É ASSIM QUE A GENTE FALA – ISMAEL GAIÃO DA COSTA


Ismael Gaião da Costa

Há diferenciação
Porque cada região
Tem seu jeito de falar
O Nordeste é excelente
Tem um jeito diferente
Que a outro não se iguala
Alguém chato é Abusado
Se quebrou, Tá Enguiçado
É assim que a gente fal
Uma ferida é Pereba
Homem alto é Galalau
Ou então é Varapau
E coisa ruim é Peba
Cisco no olho é Argueiro
O sovina é Pirangueiro

Enguiçar é Dar o Prego
Fofoca aqui é Fuxico
Desistir, Pedir Penico
Lugar longe é Caxaprego
Ladainha é Lengalenga
E um estouro é Pipoco
Qualquer botão é Pitoco
E confusão é Arenga


Fantasma é Alma Penada
Uma conversa fiada
Por aqui é Leriado
Palavrão é Nome Feio
Agonia é Aperreio
E metido é Amostrado
O nosso palavreado
Não se pode ignorar
Pois ele é peculiar
É bonito, é Arretado
E é nosso dialeto

Sendo assim, está correto

Dizer que esperma é Gala
É feio pra muita gente
Mas não é incoerente
É assim que a gente fala

Você pode estranhar
Mas ele não tem defeito
Aqui bala é Confeito
Rir de alguém é Mangar

Mexer em algo é Bulir
Paquerar é Se Inxirir
E correr é Dar Carreira
Qualquer coisa torta é Troncha
Marca de pancada é Roncha
E a caxumba é Papeira

Longe é o Fim do Mundo
E garganta aqui é Goela
Veja que a língua é bela
E nessa língua eu vou fundo
Tentar muito é Pelejar
Apertar é Acochar

Homem rico é Estribado
Se for muito parecido
Diz-se Cagado e Cuspido
E uma fofoca é Babado
Desconfiado é Cabreiro
Travessura é Presepada
Uma cuspida é Goipada
Frente de casa é Terreiro

Dar volta é Arrudiar
Confessar, Desembuchar
Quem trai alguém, Apunhala
Distraído é Aluado
Quem está mal, Tá Lascado
É assim que a gente fala

Aqui valer é Vogar
E quem não paga é Xexeiro
Quem dá furo é Fuleiro
E parir é Descansar
Um rastro é Pisunhada
A buchuda é Amojada
E pão-duro é Amarrado

Verme no bucho é Lombriga
Com raiva Tá Com a Bixiga
E com medo é Acuado
Tocar em algo é Triscar
O último é Derradeiro
E para trocar dinheiro
Nós falamos Destrocar

Tudo que é bom é Massa
O Policial é Praça
Pessoa esperta é Danada
Vitamina dá Sustança
A barriga aqui é Pança
E porrada é Cipoada

Alguém sortudo é Cagado
Capotagem é Cangapé
O mendigo é Esmolé
Quem tem pressa é Avexado
A sandália é Percata
Uma correia, Arriata
Sem ter filho é Gala Rala
O cascudo é Cocorote
E o folgado é Folote
É assim que a gente fala

Perdeu a cor é Bufento
Se alguém dá liberdade
Pra entrar na intimidade
Dizemos Dar Cabimento
Varrer aqui é Barrer
Se a calcinha aparecer
Mostra a Polpa da Bunda
Mulher feia é Canhão
Neco é pra negação
Nas costas, é na Cacunda

Palhaçada é Marmota
Tá doido é Tá Variando
Mas a gente conversando
Fala assim e nem nota
Cabra chato é Cabuloso
Insistente é Pegajoso
Remédio aqui é Meisinha
Chateado é Emburrado
E quando tá Invocado
Dizemos Tá Com a Murrinha

Não concordo, é Pois Sim
Tô às ordens é Pois Não
Beco ao lado é Oitão
A corrente é Trancilim
Ou Volta, sem o pingente
Uma surpresa é, Oxente!
Quem abre o olho Arregala
Vou Chegando, é pra sair
Torcer o pé, Desmintir
É assim que a gente fala

A cachaça é Meropéia
Tá triste é Acabrunhado
O bobo é Apombalhado
Sem qualidade é Borréia
A árvore é Pé de Pau
Caprichar é Dar o Grau
Mercado é Venda ou Bodega
Quem olha tá Espiando
Ou então, Tá Curiando
E quem namora Chumbrega

Coceira na pele é Xanha
E molho de carne é Graxa
Uma pelada é um Racha
Onde se perde ou se ganha
Defecar se chama Obrar
Ou simplesmente Cagar
Sem juízo é Abilolado
Ou tem o Miolo Mole
Sanfona também é Fole
E com raiva é Infezado

Estilingue é Balieira
Uma prostituta é Quenga
Cabra medroso é Molenga
Um baba ovo é Chaleira
Opinar é Dar Pitaco
Axilas é Suvaco
E cabra ruim é Mala
Atrás da nuca é Cangote
Adolescente é Frangote
É assim que a gente fala

Lugar longe aqui é Brenha
Conversa besta, Arisia
Venha, ande, é Avia
Fofoca é também Resenha
O dado aqui é Bozó
Um grande amor é Xodó
Demorar muito é Custar
De pernas tortas é Zambeta
Morre, Bate a Caçuleta
Ficar cheirando é Fungar

A clavícula aqui é Pá
Um mal-estar é Gastura
Um vento bom é Frescura
Ali, se diz, Acolá
Um sujeito inteligente
Muito feio ou valente
É o Cão Chupando Manga
Um companheiro é Pareia
Depende é Aí Vareia
Tic nervoso é Munganga

Colar prova é Filar
Brigar é Sair no Braço
Nosso lombo é Ispinhaço
Faltar aula é Gazear
Quem fala alto ou grita
Pra gente aqui é Gasguita
Quem faz pacote, Embala
Enrugado é Ingilhado
Com dor no corpo, Ingembrado
É assim que a gente fala

Um afago é Alisado
Um monte de gente é Ruma
Pra perguntar como, é Cuma
E bicho gordo é Cevado
A calça curta é Coronha
Um cabra leso é Pamonha
E manha aqui é Pantim
Coisa velha é Cacareco
O copo aqui é Caneco
E coisa pouca é Tiquim

Mulher desqualificada
Chamamos de Lambisgóia
Tudo que sobra, é Bóia
E muita gente é Cambada
O nariz aqui é Venta
A polenta é Quarenta
Mandar correr é Acunha
Ter um azar é Quizila
A bola de gude é Bila
Sofrer de amor, Roer Unha

Aprendi desde pivete
Que homem franzino é Xôxo
Quem é medroso é um Frouxo
E comprimido é Cachete
Sujeira em olho é Remela

Quem não tem dente é Banguela
Quem fala muito e não cala
Aqui se chama Matraca
Cheiro de suor, Inhaca
É assim que a gente fala

Pra dizer ponto final
A gente só diz: E Priu
Pra chamar é Dando Siu
Sem falar, Fica de Mal
Separar é Apartá
Desviar é Ataiá
E pra desmentir é Nego
Quem está desnorteado
Aqui se diz Ariado
E complicado é Nó Cego
Coisa fácil é Fichinha
Dose de cana é Lapada
Empurrão é Dá Peitada
E o banheiro é Casinha
Tudo pequeno é Cotoco
Vigi! Quer dizer, por pouco
Desde o tempo da senzala
Nessa terra nordestina
Seu menino, essa menina!
É assim que a gente fala

O nome do cordelista é Ismael Gaião da Costa, nasceu em Recife-PE.
Engenheiro Agrônomo, Funcionário Público Federal, lotado na UFRPE – Estação Experimental de Cana-de-açúcar de Carpina.
Publicou 20 (vinte) “Cordéis” e diversas poesias (sonetos, matutas, sociais).
É filiado à UNICORDEL – União dos Cordelistas de Pernambuco, na qual integra a equipe de Declamadores.
Assina a Coluna COLCHA DE RETALHOS, no JORNAL DA BESTA FUBANA – uma gazeta da bixiga lixa (Blog), Condado-PE, em 07 de maio de l961. Reside no (www.luizberto.com), publicando poesias, prosas e contos, diariamente.
Ganhador da 4ª RECITATA – 2009(concurso de poesia declamada) da Fundação de Cultura da Cidade do Recife, com nota 10 (dez) no Júri Popular, declamando a poesia MENINO DE RUA.
Ele tem um blog no seguinte endereço: http://recantodasletras.uol.com.br/autor.php?id=50436
E o endereço para o cordel é: http://recantodasletras.uol.com.br/cordel/1496943

Nota do Blog: Colado do blog de Casciano Vidal. Quê legal!